Sobre a II Mostra de Teatro no Ônibus

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Agradecemos a todxs que participaram da nossa II Mostra de Teatro no Ônibus e compartilhamos o documentário que fizemos em parceria com a equipe Cinefoto Colapso. Neste momento tão complexo de luta e resistência, acreditamos mais do que nunca na importância do trabalho realizado em nossa lata rodante semeando por uma arte do encontro sem fronteiras.

Também é possível ler sobre o projeto na publicação online.

E, a seguir, um texto-relato de Anderson Mauricio, coordenador do projeto da Mostra e cofundador da Trupe Sinhá Zózima.
 
Sobre nossa II Mostra de Teatro no Ônibus
 
Este ano ainda não pisamos no Terminal Parque Dom Pedro II, isso às vezes dói na alma. Como tantas e tantas coisas ultimamente. 
 
As razões são muitas e complexas: falta de recurso, verba congelada, mudança de gestão e de governo, tentativa de diálogo, jogo de cintura, cansaço, 10 anos de percurso em 2017, algumas mudanças, alguns sonhos, outras viagens. Destes 10 anos de existência e resistência, 8 estamos no Terminal, lugar de tantas histórias com passageiros e funcionários, de tantos encontros com artistas e grupos, de tantos momentos que fazem sentido para uma vida inteira. Eu sei que não é fim, é curva, pausa dramática, silêncio, busca da consciência na respiração. E a todos os passageiros que perguntam sempre por nós: tenham calma, que em breve voltaremos. Em breve o mundo toma seu rumo; e fazemos parte desta luta. 
 
A Mostra de Teatro no Ônibus é mais uma das ações que desenvolvemos no Terminal Parque Dom Pedro II em busca do encontro com aquele que quase, ou nunca, tem a oportunidade de ir ao teatro e espaços culturais, pois aquele que sempre vê o sol, pouco sabe sobre a escuridão, apenas reconhece sua sombra e não a do mundo. É sobre a alegria de ser fresta donde o sol pode entrar aos poucos, isso esquenta a alma e faz brotar acalanto no espírito. Sempre nos interessou semear o terreno fértil da imaginação, às vezes tão óbvio para alguns privilegiados mortais, mas não para tantos outros. Eu mesmo a descobri numa viagem de ônibus e pensei que seu nome era loucura, essa tão reprimida e enclausurada em nossa sociedade, tive receio, mas logo Gaston Bachelard me esclareceu que não, era devaneio, era um outro olhar para o mundo. Trata-se disso, de olhar para o mundo com afeto; essa é a escolha. Se é necessário que se possa olhar para aquilo que o mundo não deveria ser (mais ainda é), acredito que seja imprescindível que se lance olhares para o que ainda não é. Para a possibilidade de invenção, de criação. É neste espaço do vazio, do invisível e intangível onde podemos semear outras possibilidades de mundo. E estamos juntos, pois é necessário convocar nosso melhor para ler e escrever estes tempos, ouvir e dizer o que vem ao coração, sua multiplicidade, sua diversidade, sua visão de mundo. 
 
Neste documentário, o registro da II Mostra de Teatro no Ônibus, que aconteceu em 2016, o registro das sementes que semeamos, da saudade que dá quando tem amor, da história e memória que a Trupe Sinhá Zózima vem construindo ao longo de sua trajetória, da nossa voz e de como doamos nosso melhor. Dos encontros que tivemos com artistas que agradecemos por fazerem parte deste projeto e que sempre ampliam o espaço do ônibus como lugar. Estes dias o Leonardo Souza, da Cinefoto Colapso, que registrou e editou esse material que vocês vão assitir com seu parceiro Rui Alves, nos disse que sempre teve uma memória do Terminal Parque Dom Pedro II de medo, receio, de repulsa, mas que ao longo do projeto isso mudou, que todas às vezes que ele passa pelo Terminal lembra da gente. Lembra da arte naquele lugar. Sim, é possível. Eles querem que acreditemos que não é, mas é.
 
Gratidão a todos e todas. Até a próxima!!!
 
Anderson Maurício
maio de 2017